13 de abr de 2015

"Manuel, foi pro céu"


Fê Attom, cantor, 50 anos, é um homem exageradamente acima do peso, fruto de anos de boêmia. Sujeito um tanto manhoso, meio brincalhão, eterno fanfarrão. Fez sucesso no passado, mas hoje sobrevive de uma única canção. Suas músicas, num estilo difícil de definir, sempre foram cantadas majoritariamente em inglês. O objetivo era mostrar que ele é um homem do Universo. Universal. Ah, como ele gostava, e ainda gosta, de dizer isso! Não importava a pergunta, lá vem a resposta: universo, universo, universo. Suas músicas, que ele próprio cantarola numa espécie de Itunes embutido no cérebro, soam na língua universal proveniente do país universal, assim como os membros de sua banda (apenas estrangeiros), tais quais suas letras (referências ao exterior - que terras maravilhosas!). Oh, yeah!

Um belo dia, depois do almoço, de tanto comer e beber vinho e cerveja, Fê passou mal e foi parar no pronto-socorro. Levado ao hospital, foi rapidamente atendido – ah, sim, muita gente ainda o reconhece. O quadro de enfarte era perigoso e digno de atenção máxima. Mas só havia dois médicos de plantão. Um era um moço nordestino, estudado, batalhador e perito em equipamento cardíaco, especialmente o desfibrilador; a outra, uma moça educada, inteligente, que falava apenas inglês e nada sabia do aparelho.

Fe Attom balbuciava: "Só posso ser atendido por alguém que saiba o básico de inglês". Mas a fluente na língua em nada podia ajudá-lo, afinal pouco conhecia do desfibrilador. Que dilema! 

Passada meia-hora de indecisão, Attom morreu. No fundo, a rádio interna do hospital tocava Manoel, de Ed Motta.

"Gostava de música americana, 
  Ia pro baile dançar todo fim-de-semana...

  Manoel
  Foi pro céu! 
  Manoel! 
  Foi pro céu!"

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